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Procissão do Fogaréu

Os Farricocos

No final da Idade Média e início da Moderna, o farricoco possuía um caráter de penitência e estigmatização. Sua presença nas procissões estava relacionada à expiação pública de faltas cometidas e ser farricoco era ser portador de um estigma.

Na Idade Moderna (séculos 15 a 18), em algumas partes de Portugal e Espanha, o farricoco estava associado à penitência, a uma punição imposta àqueles que não seguissem as determinações da Igreja. Nas procissões que iam pelas estradas de pedras, à luz dos archotes, os cavaleiros das irmandades iam vestidos de roupas de seda, com espadas de prata e alamares, cheios de pompa e luxo na busca do Cristo, com o objetivo de aprisiona-lo. Junto deles iam os “desviantes”, vestidos com roupas de lá grosseira, como os pescadores, e com um capuz com chapéu em forma de cone, que devia ser usado pelos “condenados”, correndo descalços para acompanhar os cavalos. Era uma forma de os penitentes expiarem seus pecados sem ter que revelar publicamente sua identidade.

Com o passar do tempo, na Espanha, os farricocos passaram e ser responsáveis por manter a ordem, afastando as pessoas do caminho, ora anunciando a procissão com o uso de matracas, ora fustigando com um comprido relho os que impediam sua marcha.

Na tradição brasileira, o Farricoco passou a ser chamado também e Faricoco, Maceiro da Misericórdia (Rio de Janeiro), Gato da Misericórdia (Bahia), Gato (Bahia), Coca, Papangu (Recife) ou “A Morte” (São Paulo). São sempre penitentes encapuzados, que vestem túnicas reluzentes de cores vibrantes e representam os soldados romanos enviados por Caifás para encontrar e prender Jesus.

A indumentária utilizada pelos farricocos no Brasil atual é composta de uma túnica comprida e um longo capuz pontiagudo em forma de cone. A forma cônica e altura dos capuzes evocaria uma aproximação do penitente ao céu. Guarda fortes semelhanças com as vestimentas comuns nas celebrações da semana santa na Espanha.


A Procissão do Fogaréu

É uma manifestação religiosa popular de origem Ibérica. Encontramos registros da mesma em Portugal, Espanha, e em algumas de suas antigas colônias na América. Tem origem, provavelmente, nas Procissões das Endoenças (indulgentias, indulgências), que eram realizadas na quinta-feira santa, e seriam um rito público de absolvição dos pecadores no fim da penitência quaresmal.

O ritual, cujo caráter inicial era pautado por penitência, condenação e flagelação, se transformou em uma festa de rememoração da prisão de Cristo.

A manifestação aportou no Brasil, provavelmente, na Bahia do início do século 17. As procissões do Fogaréu realizadas no Brasil encenam a busca e prisão de Jesus Cristo. Os soldados partem em disparada para cumprir a ordem de Caifás. Na primeira parada da procissão, a tropa dos Farricocos encontra a mesa da ceia vazia, Jesus não está mais lá. A tropa continua a busca e prende o Cristo no Monte das Oliveiras. Neste momento, ao som do clarim, surge um farriococo carregando um estandarte com a imagem de Jesus, simbolizando a sua captura.

Alguns lugares no Brasil onde acontece a Procissão do Fogaréu:
Goiás – GO
Oeiras – PI
Caxias – MA
São Cristóvão – SE
Paraty - RJ


A Procissão do Fogaréu em Goiás

Reza a tradição que a Procissão do Fogaréu é realizada na Cidade de Goiás desde 1745, ano em que foi entregue uma das reconstruções da Igreja Matriz de Sant’Ana. Comprovadamente, a procissão é realizada desde os fins do século 19. Foi recriada pela Organização Vilaboense de Artes e Tradições – OVAT na década de 1960, e é considerado um dos principais eventos religiosos do estado de Goiás. Trata-se de uma celebração da morte do Cristo onde os elementos centrais são o Farricoco e o espetáculo proporcionado pelas chamas das tochas refletidas nas vestimentas de quem as carrega e no casario antigo da cidade.

Os Farricocos foram trazidos a Goiás pelo padre espanhol João Perestelo de Vasconcelos Espíndola, pároco da cidade na época. As personagens são vividas por 40 voluntários que “correm” a procissão, atravessam o Centro Histórico descalços, entoando músicas sacras, carregando tochas de fogo, em passos apressados e ao som dos tambores que marcam a cadência pelas ruas de pedra da antiga Villa Boa de Goyaz. Alguns fiéis e turistas tentam acompanhar a perseguição.

Na noite da Quarta-feira Santa os Farricocos e os acompanhantes concentram-se em frente à Igreja da Nossa Senhora da Boa Morte, na praça principal da cidade, a praça do coreto, entoando cantos religiosos e aguardando a hora de correr a procissão. Às 24:00 horas a iluminação pública se apaga e, ao som cadenciado dos tambores, tem início a procissão.

O grupo atravessa o Rio Vermelho e segue para onde estaria sendo realizada a última ceia, na escadaria da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, mas a mesa já está dispersa.

Em seguida, avançam pela Rua da Abadia, atravessam novamente o Rio Vermelho, em direção ao Jardim das Oliveiras, simbolizado pela Igreja de São Francisco de Paula. É ali que, ao som do clarim, se dá a prisão do Cristo. O único farricoco vestido de branco surge carregando o estandarte com a imagem de Jesus, representando sua captura. O Cristo é representado por um estandarte de linho pintado em duas faces, obra do artista plástico oitocentista Veiga Valle.

A beleza e o caráter histórico medieval da procissão, no calçamento de grandes pedras irregulares de Goiás Velho, cidade de arquitetura colonial considerada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, atrai uma pequena multidão a cada ano.


Fogaréuzinho

Na tarde da quarta feira santa, as 17:00 horas, acontece o Fogaréuzinho, organizado pela Escola Letras de Alfenim. É uma Procissão do Fogaréu para crianças. A saída é na porta do Museu das Bandeiras, o percurso é pequeno, e a encenação tem o mesmo contexto da Procissão da noite, contando inclusive com Farricoquinhos.


Mais sobre Farricocos e Procissão do Fogaréu:

“Luzes e Trevas: Itinerários da Procissão do Fogaréu em Goiás”

“Cartografia de Goiás: Patrimônio, Festa e Memórias”




Saúde:
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